terça-feira, 23 de setembro de 2014

Salvador, capital da violência...

Salvador

"Ele pediu para não morrer", diz professor de adolescente morto na Liberdade

O estudante e mais dois foram executados neste domingo; vizinhos fazem protesto contra a violência na região
23/09/2014 08:05:15
Yuri, Renê e Eduardo. Todos vizinhos, moradores do bairro da Liberdade. Em pouco mais de um minuto, separados por cerca de 300 metros de distância, os três estavam mortos, caídos na rua.
De acordo com a polícia, tanto Yuri Borges de Menezes Serra de Jesus, 16 anos, quanto Renê Leandro Batista dos Santos, 29, e Eduardo Santos de Jesus, 30, foram mortos pelo mesmo grupo, na noite de domingo. Moradores contam que, por volta das 19h30, um carro preto com quatro homens encapuzados passou pela Rua Euzébio de Queiroz e pelo Largo do Queimado. 
Amigos e parentes de três jovens mortos na noite de ontem na Liberdade fazem manifestação para pedir justiça
Vestindo bermudas e, supostamente, carregando distintivos da polícia, eles desceram do carro ao se deparar com as vítimas. Depois, atiraram para matar e desapareceram, em fuga, deixando os três corpos para trás.
Primeiro, foi Yuri. Depois que viu seu Vitória vencer o Bahia de virada, naquela tarde, o estudante decidiu sair de casa com a camisa rubro-negra (como na foto abaixo), para comer um pastel e visitar a namorada, moradora da Eusébio de Queiroz. Mas não teve tempo. 
O estudante e mais dois foram executados neste domingo no bairro da Liberdade
“Ele ia na barraquinha do pastel e ficou conversando com a namorada, quando veio o carro. De casa, ouvi os tiros. Foram uns 10, 12. Mas eu nunca imaginava que fosse ele”, conta o estudante Luís Henrique Silva, 13, vizinho e amigo de Yuri.
De acordo com a Polícia Civil, um dos homens que estava no carro teria dito a Yuri: “É você”. Enquanto a garota com quem o adolescente estava fugiu, ele foi atingido por sete tiros e morreu no local, antes que pudesse ser socorrido. Yuri ainda teria implorado para não ser morto.
“Ele não tinha nada a ver com o tráfico. Ainda pediu para não morrer, mas mandaram que ele se ajoelhasse”, relata o professor Edvaldo Brasil, que trabalha na Escola Estadual Luiz Navarro de Brito, onde Yuri cursava o primeiro ano do ensino médio.
Sem envolvimento
Nos últimos dois anos, Yuri foi o responsável pelo timbau na fanfarra do colégio e, desde abril, era estagiário do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac). “Meu filho saiu de casa todo perfumado para a morte. Ele era um menino tão bom, tão amado”, lamenta a mãe do jovem, Suzane Borges, amparada por parentes.
Ele tinha ido ver a namorada, coisa de rapazinho. Obedecia à mãe, voltava no horário
Maria José Serra, avó do adolescente Yuri Borges, assassinado com sete tiros 
Avó de Yuri Borges, Maria José Serra
Sem perder tempo, os homens voltaram ao carro – e seguiram até o fim da rua. Já perto do Largo do Queimado, passariam direto, se não tivessem avistado Renê e Eduardo. O primeiro estava na porta de casa, encostado no Volkswagen Fox preto de seu primo. Já o segundo, caminhava na rua em direção à esquina.
“Quando eles viram Renê e Eduardo, deram uma ré e saíram para atirar. Um foi atrás de Eduardo, outro foi em Renê. Eduardo ainda saiu correndo e caiu na porta da minha casa. Foram uns 30 tiros. Só Eduardo tomou uns dez”, registra o aposentado Jackson Luís, 33.
“Eu tinha acabado de entrar em casa quando eles (os bandidos) passaram. Já chegaram dizendo que era ‘polícia’. Na hora que Renê levantou as mãos, para mostrar que não tinha nada de errado, atiraram na mão dele”, relatou o primo da vítima, Bruno dos Santos. A polícia não informou o número de tiros que o atingiram. Renê e Eduardo ainda chegaram a ser encaminhados ao Hospital Geral Ernesto Simões, mas morreram na unidade.
Renê, que era divorciado, morava com a mãe, Lícia Oliveira. Quando ela ouviu os primeiros disparos correu para a janela do andar de cima da casa - ainda a tempo de ver a execução de seu filho. “Ele ficou parado, porque achou que não ia ser com ele. Só vi aquelas armas prateadas grandes. Pense em como é perder meu filhinho. Eu cuidava tanto dele”, desabafa Lícia, sob efeito de calmantes.
Bruno dos Santos, primo de Renê Leandro Batista
Na hora que Renê levantou as mãos, para mostrar que não tinha nada de errado, atiraram na mão deleBruno dos Santos, sobre execução de Renê, seu primo, por homens de capuz
Segundo a família, Renê era motorista do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia (TJ-BA), embora a assessoria do órgão tenha negado. Nas horas vagas, ele trabalhava fazendo bicos como mecânico. Além disso, Renê estaria estudando para tornar-se pastor: trabalhava como obreiro na Igreja Assembleia de Deus.
Segundo vizinhos, Eduardo também era evangélico. “Conhecia ele de vista, mas todo mundo sabia que ele era trabalhador. Era uma pessoa de bem. Se não me engano, era mototáxi”, afirma o aposentado Jackson Luís, 33.
Protestos
Na manhã da segunda-feira (22), cerca de 150 moradores e estudantes da escola onde Yuri estudava fizeram um protesto no bairro. Inicialmente, o grupo fechou a Rua do Queimado com pneus e pedras e depois seguiu em passeata.
“Autoridade não resolve e pessoas que não têm ligação com nada pagando o preço”, reclamou o técnico em gás Deivdson dos Santos, 33, durante o ato. 
Sob o olhar de PMs, amigos e parentes de mortos  realizam protesto na Liberdade para pedir justiça. Outro protesto, na tarde de ontem, terminou com pneus queimados na Soledade
“O que está acontecendo é que o tal do Aranha para, mata e acabou. Esse Aranha e o grupo dele estão botando o terror, matando gente inocente”, disse um manifestante, sob anonimato, referindo-se a Gilmar Silva Tanajura, 29, apontado pela polícia como líder do tráfico na Avenida Peixe, na Liberdade.
No final da tarde, moradores voltaram a protestar contra a falta de segurança no bairro - um grupo chegou a fechar o Largo da Soledade. PMs acompanharam o ato. Em nota, a Secretaria Estadual da Educação (SEC) lamentou a morte de Yuri.
As aulas no colégio do adolescente foram suspensas, ontem, mas devem retornar hoje. Os corpos de Yuri e Eduardo foram enterrados na tarde de ontem, no cemitério Quinta dos Lázaros. Já Renê foi sepultado no cemitério da Ordem Terceira de São Francisco.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Judiciário X marginais...

Traficante comandou chacina para se vingar de ex-comparsa

Com a prisão de Cuminho, Leno ficou sozinho na administração das bocas de fumo e acabou se ligando uma facção rival. Cuminho quis “acertar as contas”
11/08/2014 10:53:49
Seis pessoas foram mortas a tiros durante uma festa de aniversário na Rua do Guiné, em Periperi, por volta das 20h30 de sábado. Mais duas pessoas  foram baleadas, mas não correm risco de morrer. Segundo o delegado Odair Carneiro, da Delegacia de Homicídios Múltiplos (DHM), nove homens chegaram em dois carros e atiraram contra as vítimas.

Rua do Guiné, em Periperi, ontem à noite. Um dia após chacina, pouca gente na rua. Quem foi encontrado não quis comentar crime (Foto: Almiro Lopes)
A chacina teria sido motivada por uma rixa entre o traficante conhecido como Leno e seu rival, Daniel Pereira dos Santos, o Cuminho. Segundo a polícia, os dois eram parceiros na facção Comissão da Paz (CP), mas, com a prisão de Cuminho, Leno ficou sozinho na administração das bocas de fumo da região e acabou se ligando à facção rival, Caveira.

De acordo com Odair, Cuminho estava preso por tráfico, homicídio e sequestro e deixou a prisão na segunda-feira, por conta da saída temporária do Dia dos Pais. Ele ficou sabendo que estava acontecendo uma festa de aniversário de parentes de Leno e então resolveu “acertar as contas”.

Leno, no entanto, não foi encontrado na casa, o que não impediu as mortes de Amanda Reis dos Anjos, 21 anos; Alessandro Reis dos Anjos, 29; Marcos Antônio Silva Santos, 28; Ricardo de Carvalho Silva, 28; Edmilson Santos dos Anjos, 52; e Adoniran Reis dos Santos, 35 anos. Nenhuma das vítimas tinha passagem pela polícia.

Já Alessandra Reis dos Anjos, 37 (irmã de Alessandro), e Leilane Reis Menezes, 20, foram baleadas na perna esquerda e encaminhadas para o Hospital do Subúrbio. Entre os mortos, Edmilson e Marcos não estavam na festa, e foram mortos em via pública.  “Edmilson estava passando na rua e foi alvejado. Ele foi ver minha mãe. A gente nem sabia que estava tendo festa. Não sei explicar o que aconteceu”, conta a doméstica Magali Assis de Jesus, 41, ex-mulher de Edmilson.

Segundo os familiares, ele era operador de máquinas e pedreiro e estava passando pelo local de moto. “Edmilson não estava envolvido, mas conhecia o pessoal”, conta o delegado.Segundo a polícia, a festa de aniversário seria de uma tia de Leno. Familiares de Edmilson informaram que  o bando já chegou na Rua do Guiné atirando. Também são apontados como participantes da chacina os criminosos Jean Jorge Gonçalves dos Santos, conhecido como Papel, e Diego de Souza Gonçalves, o Bide. Os dois também teriam  tido o benefício da saída temporária para o Dia dos Pais e deixaram o Presídio Salvador, na segunda-feira, segundo o delegado.
Depois dos crimes, revoltada, a quadrilha de Leno botou fogo na casa do pai de Cuminho, no mesmo bairro. Um dos parentes de Ricardo, que não quis se identificar, disse que ele foi morto na cozinha. “Ele saiu ontem e foi para um aniversário e não disse onde era. O lugar que ele estava a gente não vai. Falei para ele não ir mais lá, porque o pessoal de lá vira e mexe tem rixa com outros  bairros”, conta.
Periperi é bairro com mais assassinatos no ano: 31
De janeiro até sábado, 31 pessoas foram vítimas de homicídio no bairro de Periperi, no Subúrbio Ferroviário, segundo dados do boletim diário da Secretaria da Segurança Pública (SSP), que não contabiliza casos de latrocínio (roubo seguido de morte).
Com a chacina na Rua do Guiné, que terminou com seis mortos, o bairro ultrapassou os vizinhos Paripe e Lobato, ambos com 27 homicídios registrados,  e empatou com São Cristóvão, onde também foram registrados 31 assassinatos desde o início do ano.
O índice de mortes é o mesmo do município de Dias D’Ávila, na Região Metropolitana, que tem 75 mil habitantes. Periperi tem 49 mil, segundo o último Censo. Outros bairros com números alarmantes de assassinato na capital são Mata Escura, com 23 mortes, Liberdade (22), Cajazeiras (21), Águas Claras (19) e Sussuarana (18). No total, são 1277 homicídios contabilizados este ano em Salvador e Região Metropolitana.
VÍTIMAS DE HOMICÍDIOS EM PERIPERI EM 2014

Nome
morto em
Rafael de Almeida,  25  anos 
1/1
Marilene de Jesus, 46 anos
14/1
Givaldo Lopes Jr, 21 anos
28/1
Edivandro Santana, 24 anos
4/2
Joaquim Silva, 69 anos
15/2
Alexandro Fernandes, 23 anos
22/2
Alexandro Souza, 21 anos
14/4
Joelson Santos, 27 anos
16/4
Wesley Bezerra, 20 anos
23/4
Vitor Marlei, 20 anos
20/5
Osvaldo Moreira, 31 anos
31/5
Adílson Bonfim, 22 anos
20/4
Iago Santana, 18 anos
2/6
Ícaro Araújo, 20 anos
7/6
Homem não identificado
16/6
Jordão Oliveira, 30 anos
16/6
Elton Sodré, 18 anos
21/6
Cristiana de Jesus, 30 anos
23/6
Homem não identificado 
15/7
T.C.R., 17 anos
16/7
Bruno Santos, 18 anos
17/7
Gleidson Silva, 20 anos
1/8
G.V.B., 17 anos
1/8
3/8
4/8
Amanda dos Anjos, 21 anos
9/8
Alessandro dos Anjos, 29 anos
9/8
Marcos Santos, 28 anos
9/8
Ricardo Silva, 28, 
9/8
Edmilson dos Anjos, 52 anos
9/8
Adoniran dos Santos, 35, 
9/8

Enterra em todos nós...

Salvador tem zonas de interseção entre domínios de rivais do tráfico

Apesar de não envolver questões étnicas ou religiosas, Salvador também tem zonas de conflito em áreas vizinhas, ocupadas por rivais. É a guerra do tráfico, onde o medo impera e, como na Faixa de Gaza, quem mais sofre são os ‘civis’
12/08/2014 12:27:08
Rua Almirante Mourão de Sá, entre Paripe e Fazenda Coutos, é um dos pontos de tensão do Subúrbio por conta da guerra do tráfico. Bairros já registraram 34 homicídios em 2014 (Foto: Evandro Veiga)
Já passavam das 23h quando a aposentada Olindina Serra acordou assustada com o barulho de tiros disparados próximo à sua residência, na Rua 05, em Fazenda Coutos. Mesmo com o número de estampidos – seis, até onde contou –, Olindina virou para o outro lado e voltou a dormir. “Quem mora aqui já se acostumou. A gente se assusta no primeiro tiro e depois só espera terminar. É a Faixa de Gaza do Subúrbio, né? Quem não tem como mudar, tenta se acostumar”, afirma a aposentada.

Apesar de não haver nenhum logradouro chamado Faixa de Gaza em Salvador, o apelido é comumente utilizado por moradores para designar vias que separam áreas dominadas por grupos criminosos em conflito constante. Na lei silenciosa das Gazas espalhadas pela capital, quem mora em um lado não cruza para o outro, norma que deve ser obedecida sob pena de retaliação.

Parede com buracos de bala é sinal da
violência que assola o Subúrbio
(Foto: Evandro Veiga)
A Gaza suburbana citada pela aposentada é a Rua Almirante Mourão de Sá, uma via com cerca de 1,5 km que separa os bairros de Paripe e Fazenda Coutos. No trecho intermediário da via, na altura da “afamada” Rua da Paz do Bate Coração, algumas casas são marcadas por pichações de facções criminosas e buracos de bala, resultado das constantes disputas entre bandidos dos dois bairros.

“Infelizmente, a gente tem que viver com essa situação. Basta aparecer algum desconhecido na área que os bandidos aparecem para saber quem é. Eles ficam revidando: um grupo do Bate Coração vem e assalta alguém aqui na Fazenda Coutos. Depois, um grupo daqui vai lá e atira em alguém”, conta uma moradora, sob anonimato. “Só que a população, que não tem nada a ver, fica no meio”, complementa.

No fim de semana, apareceu mais uma candidata a figurar como Gaza do Subúrbio: na rua Guiné, em Periperi, seis pessoas foram assassinadas. Com a chacina na Guiné, Periperi registrou 31 homicídios em 2014, passando a liderar a estatística por bairros em Salvador, à frente dos vizinhos Paripe e Lobato, ambos com 27 homicídios registrados, e empatando com São Cristóvão, onde também foram registrados 31 crimes de morte.

Autoestima
A tenente Jéssica Souza, comandante da Base Comunitária de Fazenda Coutos, não gosta do apelido dado à Mourão de Sá, especialmente após o trabalho que sua equipe vem desenvolvendo na área. “Nós lutamos contra essa situação aqui, mas não gosto do termo Faixa de Gaza.
Acredito que esse tipo de apelido só contribui para rebaixar a autoestima dos moradores”, diz.
Segundo a tenente, “quantitativamente, é visível a redução da criminalidade”, desde que a base foi instalada. “Estamos desenvolvendo a cultura de paz, projetos e ações, como a patrulha comunitária, e isso tem repercutido até mesmo do lado de lá (Paripe)”, afirma.

Porém, na contramão da tal “cultura de paz”, a cultura do medo tem prevalecido na vizinhança. Situação que se agravou ainda mais com o sequestro de jovens na região, ocorrido nas últimas semanas. Isso afetou, principalmente, a rotina de crianças e adolescentes. “Minha mãe me disse para não ir à escola. A gente vê o que acontece aqui, todo dia. Agora, com essa onda de sequestros, o medo aumentou ainda mais. Tem colega levando até arma para a escola”, afirma um estudante de 13 anos, que não foi à aula semana passada.

Bonocô
Há quem diga que o “sistema” no Subúrbio Ferroviário é diferente, mas, ao contrário do que se pensa, as Faixas de Gaza não são exclusividade da periferia de Salvador. Na área central da cidade, a Avenida Bonocô representa a linha que separa dois dos maiores polos do tráfico de narcóticos, os bairros de Cosme de Farias e Campinas de Brotas.

A guerra entre os bairros ligados por uma passarela ganhou notoriedade após a operação que resultou na morte do traficante Tiago Guimarães Pinto, o Titanic, em fevereiro. Contudo, seis meses após a morte do chefe do tráfico de Cosme de Farias, moradores e funcionários de empresas no entorno ainda temem a travessia quando a noite se aproxima. E a maior parte das pessoas ainda vive sob a lei do silêncio. “Todo mundo aqui sabe o que acontece, mas a gente não pode ficar comentando”, explica um trabalhador.

Guerra fria
Para o capitão Edno Amaral, da 58ª CIPM (Cosme de Farias), a intensificação do policiamento na área reduziu bastante o número de ocorrências, contudo, o medo disseminado na população nos últimos anos contribuiu para uma espécie de trauma que faz com que não se sintam à vontade para falar abertamente sobre o assunto.

“Tivemos problemas com aquele trecho, no passado, mas o que há ali hoje em dia é uma ‘guerra fria’. Os líderes do tráfico que dominavam aquela região amedrontavam os moradores. A maioria silencia para assegurar uma estada sem sustos, pois essa mesma maioria não tem condições de se mudar”, avalia o capitão.

Contudo, quem hoje percebe uma certa calmaria na Faixa de Gaza da Bonocô lembra como era o clima nos períodos de conflito aberto. “Morei em Campinas (de Brotas) por mais de 30 anos e hoje venho, de vez em quando, visitar meus filhos”, afirma o taxista Emerson Rodrigues. Segundo ele, houve um tempo em que tinha olheiros dos dois lados. “Bastava cruzar a passarela, que era voz de assalto, tiroteio. Foi por causa de situações assim que decidi me mudar”, explica.

Apesar da mudança, o taxista não conseguiu se livrar do clima de insegurança. “Saí daqui para o Imbuí e, lá perto, na Boca do Rio, tem uma Faixa de Gaza também”, aponta.

Cessar-fogo
O trecho ao qual Emerson se refere é a altura da Avenida Jorge Amado que separa as invasões do Golfo Pérsico e Irmã Dulce. “Há algum tempo era difícil viver por aqui, não dava para pisar do lado de lá sem ser assaltado. Todo dia a gente ouvia falar de alguma morte. Graças a Deus, acalmou”, relata uma vendedora, que mora na localidade do Golfo Pérsico.

A rivalidade, mais uma vez, envolve o domínio de pontos de venda de drogas. Assim como no Subúrbio, as ações criminosas se baseavam no sistema de revide. “Estava insuportável. Aconteceram chacinas aqui, nas ruas. Durante o aniversário de uma vizinha, um grupo veio do outro lado e incendiou a moto de um dos convidados. A gente sentia um clima de guerra na pele. Faz algum tempo que a situação melhorou, mas a fama continua”, conta uma moradora.

O major Gabriel da Silva Neto, comandante da 39ª CIPM (Boca do Rio), garante que o cessar-fogo é resultado das ações afirmativas que a Polícia Militar tem feito na região. “Temos tomado medidas preventivas e intensificamos o policiamento. As estatísticas mostram uma melhora grande. Isso também faz parte de um diálogo com a comunidade, que acaba ajudando nesse trabalho”, relata Silva Neto.

Palestina soteropolitana também pede uma trégua
Segunda-feira da semana passada, quando o povo palestino teve uma trégua com o anúncio de cessar-fogo feito por Israel, após um mês de ataques, em uma Palestina muito distante do Oriente Médio – aqui mesmo, em Salvador – civis lamentavam mais uma baixa gerada pela guerra diária do tráfico. “A gente também precisa de trégua aqui. O clima está insustentável. Já era o tempo em que podíamos andar pelas ruas sem medo”, afirma um taxista local.

Presidente da associação comunitária Zumbi dos Palmares e morador da Palestina soteropolitana há 40 anos, José Antônio Souza afirma que o antigo conjunto de fazendas ganhou esse nome em referência às semelhanças entre a história de luta dos posseiros que formaram o bairro e o perfil aguerrido do povo palestino. “Foi por causa da luta do povo da Palestina pela sua independência e reconhecimento”, conta.

Apesar do clima interiorano e da receptividade, especialmente dos mais antigos, os relatos de medo e tensão diante dos constantes conflitos entre facções que atuam na área compõem o retrato da guerra. “O medo começa na hora de botar o pé fora de casa. Volta e meia tem um tiroteio nas baixadas. Essa semana mesmo mataram um rapaz. Um antigo vizinho teve que fugir para o interior jurado de morte pelos traficantes”, lista um morador.

Para José Antônio de Souza, da Zumbi dos Palmares, a onda de violência que tem tomado conta da Palestina nos últimos anos é um reflexo da falta de oportunidades e atrativos para os moradores, principalmente os mais jovens. “Aqui, nós não temos áreas de lazer e entretenimento. Não temos uma escola técnica que possa dar cursos e abrir as portas dos jovens. Como é que a gente quer que as coisas mudem se o poder público esquece a nossa existência?”, questiona o líder comunitário.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Inoperância da SSP-Ba...

SSP cria grupo especial para investigar homicídios de policiais

"Acreditamos que a criação do grupo irá nos levar mais rápido à autoria e consequente prisão dos responsáveis", afirmou Barbosa, em nota
Policial Jorge foi morto em assalto na Estrada Velha do Aeroporto
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) criou um grupo especial com integrantes do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) e da Superintendência de Inteligência da SSP para investigar casos de homicídio contra policiais. Na manhã desta quinta-feira (31), mais um policial militar foi morto, dessa vez no bairro de Paripe.
A decisão de centralizar investigações do tipo partiu do secretário estadual, Maurício Teles Barbosa, do comandante-geral da PM, coronel Alfredo Castro, e do delegado-geral da Polícia Civil, Hélio Jorge Paixão.
"Acreditamos que a criação do grupo irá nos levar mais rápido à autoria e consequente prisão dos responsáveis", afirmou Barbosa, em nota.
Morte em Paripe
O soldado da Polícia Militar Washington Luiz Santos Cruz, 40 anos, morreu na manhã desta quinta-feira (31) no Hospital do Subúrbio, em Salvador. Ele foi baleado durante um assalto que aconteceu por volta das 7h, na Rua Amazonas no bairro de Paripe, Subúrbio Ferroviário. Washington é o quarto policial morto em julho deste ano.

Washington Luiz foi atingido no tórax e na virilha ao ser abordado por dois assaltantes. Ele chegou a ser socorrido por uma viatura da 19ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM/Paripe), mas não resistiu e morreu por volta das 10h30. Washington Luiz era lotado na Rondesp RMS e há nove anos integrava o quadro funcional da Corporação.

O policial estava de folga, em companhia da esposa no veículo do casal, quando foi roubado. Segundo a Polícia Militar, os assaltantes identificaram o militar e atiraram três vezes nele. Os assaltantes fugiram levando o carro do policial.

O serviço de inteligência da Polícia Militar e equipes da 19ª CIPM conseguiram localizar o veículo roubado na região conhecida como “Bate Coração”, no próprio bairro. Diligências estão sendo realizadas para localizar e prender os autores do crime.

Assalto e morte de policiais
A violência contra o policial da Rondesp ocorreu uma semana após a morte de dois policiais, um civil e um militar, em assaltos em Salvador em um intervalo de três horas. Na Estrada Velha do Aeroporto, o investigador da 13ª Delegacia (Cajazeiras), Jorge César de Castro Pereira, 55 anos, foi morto durante assalto realizado por três homens, por volta das 18h30. Ele levou um tiro no rosto quando tentou dominar um dos ladrões. 
Ao presenciar o roubo de R$ 1.800 do amigo, o policial tentou puxar a pistola ponto 40 da cintura, mas levou uma gravata de um outro bandido e em seguida o tiro no rosto. “O policial tentou obstruir a ação criminosa, mas estava em menor número”, contou o delegado Jorge Figueiredo. Em seguida, o trio de bandidos fugiu coma pistola ponto 40 e o carregador do policial em um Celta vermelho, tomado de assalto a alguns metros do galpão.
No mesmo dia, o soldado Fábio Ferreira Rosas, 34, da 40ª Companhia Independente de PM (Nordeste de Amaralina) foi executado por traficantes da Liberdade, que já assaltavam um casal em um carro. Os dois casos são investigados pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). 
Dois suspeitos pela morte do polícia civil Jorge César de Castro Pereira, também são suspeitos pela morte de um policial militar no Caji, em Lauro de Freitas, no dia 14 de julho. As prisões de Alexandro Borges da Silva, 20 anos, e Robson dos Santos Soares, 22 anos, já foram pedidas à Justiça.

L O B na PMBA...

Quinta, 31 de Julho de 2014 - 00:00

Reunião final para discussão da Lei de Organização Básica da PM e dos bombeiros ocorre na segunda

Reunião final para discussão da Lei de Organização Básica da PM e dos bombeiros ocorre na segunda

O processo de discussão do Projeto de Lei (PL) 20.884/2014 que reorganiza a estrutura da Polícia Militar da Bahia (PM-BA), cuja votação fora adiada no início do mês, está perto de ser concluído. Segundo o líder do governo na Assembleia Legislativa, Zé Neto (PT), representantes da Casa Legislativa, do governo e da categoria realizam a reunião final na próxima segunda-feira (4) para fechar o texto da Lei de Organização Básica da PM. “Vamos apresentar tudo que foi deliberado e o projeto deve ser votado no máximo até a segunda quinzena de agosto, havendo quorum”, disse o deputado. O encontro será às 16h, na sala da Liderança do Governo na AL-BA. “Nossa estratégia foi abrir para todas as associações apresentarem suas proposições. Todas tiveram espaço e tempo para isso, ouvimos por duas vezes os questionamentos das partes, depois fizemos reuniões separadas com os coronéis, com a SAEB, com a SSP e a Procuradoria [Geral do Estado]”, reforçou o petista. A última reunião foi feita nesta quarta-feira (30), entre o relator do projeto, o deputado Zé Raimundo (PT), e técnicos que analisaram a viabilidade jurídica das propostas e das emendas apresentadas pelos deputados da casa. O parlamentar não quis adiantar quais são as alterações no documento original “para que não haja ruídos ou qualquer divagação”. Também está em análise na Casa o projeto que dispõe sobre a independência dos bombeiros da corporação, que se desvincularão da PM e passarão a integrar o Corpo de Bombeiros Militar da Bahia. A PEC que institui a criação da entidade foi aprovada no dia 30 de junho. Entre as discussões sobre seu funcionamento, informou Zé Neto, está a possibilidade de oferecer ao profissional a opção de migrar para o novo órgão ou permanecer na estrutura antiga. Outra questão que segue em aberto é a delimitação da prerrogativa do secretário de Segurança Pública em poder executar investigações internas no Corpo de Bombeiros e na PM.  "Pelo projeto, PMs e bombeiros, temem invasão de competência por algum excesso que ultrapasse a subordinação operacional do secretário. Nesse contexto, estamos dialogando com muita tranquilidade", explica o líder governista.

BBB nas viaturas...

Viaturas da PM recebem kit de tecnologia para auxiliar operações

Câmeras de vídeo, monitor, computador de bordo, sistema de localização via satélite (GPS) e rádio de comunicação digital. De acordo com a Polícia Militar, mais de 80 viaturas da tropa já estão equipadas com o kit que permite a transmissão de imagens em tempo real das ações. Até o fim de 2014, o número deve ser ampliado para 200 veículos. “A mobilidade das viaturas com câmeras facilita muito nas operações e o acompanhamento do policiamento no dia a dia, pois com isso podemos analisar e avaliar o posicionamento de cada viatura em Salvador”, afirmou o superintendente de Gestão Tecnológica e Organizacional da Secretaria da Segurança Pública (SSP) e coordenador do CICC, coronel Ronaldo Tosta. O sistema vai permitir que os policiais consultem via internet o cadastro de veículos roubados, situação de condutores e mandados de prisão em aberto.

Insatisfação na PM...

Pesquisa aponta que 76,1% dos PMs são a favor de desmilitarização

Pesquisa divulgada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que 73,7% dos policiais brasileiros são a favor da desvinculação das corporações ao Exército. A pesquisa ouviu 21.101 policiais militares, civis, federais, rodoviários federais, bombeiros e peritos criminais em todos os estados, de 30 de junho a 18 de julho. Entre os PMs, 76,1% responderam ser favoráveis à desmilitarização e 93,6% acreditam que é preciso modernizar os regimentos e códigos disciplinares. A regulamentação do direito à sindicalização e de greve é aprovada por 86,7% dos entrevistados. Para 87,3%, o foco de trabalho da polícia militar deveria ser reorientado para proteção dos direitos da cidadania. Outros 80,9% avaliam que as polícias deveriam ser organizadas em carreira única com ingresso por meio de concurso público. Na pesquisa, 65,9% disseram terem sofrido discriminação por serem policiais e 59,6% afirmaram já terem sido humilhados ou desrespeitados por superiores. A morte de um suspeito por um policial deve ser investigada para 83,7% dos entrevistados. Os baixos salários foram reprovados por 99%. Falta de contingente policial insuficiente e de verbas para equipamentos foi apontada por 98,2%.