A ligação entre a facção Katiara e o PCC
(Primeiro Comando da Capital) vai além de a quadrilha comandada por
Roceirinho inspirar-se na facção paulista para criar o seu código de
conduta, batizado de Estatuto da Katiara. As duas organizações
criminosas têm o mesmo fornecedor de drogas, conhecido como Alemão,
responsável pela negociação direta com traficantes do Mato Grosso do Sul
e Paraná, estados que fazem fronteira com o Paraguai e Bolívia,
produtores de maconha e cocaína, respectivamente.
A informação é
da Polícia Federal, que na terça-feira cumpriu dez mandados de prisão
preventiva por tráfico de drogas e associação por tráfico em Salvador,
Serrinha, Nazaré, Feira de Santana e Mirandópolis (SP).
Entre os
mandados cumpridos, um deles foi contra o líder da Katiara, o
traficante Roceirinho, que está custodiado no Presídio de Serrinha.
“Quando ainda estava no Complexo da Mata Escura, ele dava as ordens
tranquilamente através do uso de celulares. Com a autorização da
Justiça, interceptamos as ligações e constatamos várias conversas com
Alemão”, explicou ontem o delegado Leonardo Almeida Rodrigues, da
Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da PF.
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Roceirinho (à esquerda) está desde 2012 em presídio federal no Mato Grosso do Sul (Foto: Divulgação/Polícia Civil)
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“Em
sua defesa, Roceirinho disse que deixou o tráfico em 2013 e que pessoas
usam o nome dele para se promover e que veio para Salvador trabalhar
como açougueiro em Valéria, onde vivem seus pais”, disse o delegado, que
interrogou o líder da Katiara dentro do presídio de Serrinha.Também foi
presa na operação a mulher de Roceirinho, Ana Carla Ferreira, 26 anos,
que estava em prisão domiciliar em Nazaré, no Recôncavo. Alemão, que já
cumpria pena em presídio em Mirandópolis (SP), responderá, agora, por
mais um processo por tráfico de drogas.
Os mandados foram cumpridos também em Salvador -
cinco no total, dos quais três foram no Complexo Penitenciário da Mata
Escura, um no Barbalho e outro em Itapuã. Os policiais federais
estiveram também em Feira de Santana, onde duas pessoas foram
capturadas. “Só teve mandado de prisão de gerente para cima, pessoas de
confiança, que viajam para finalizar a compra das drogas”, declarou o
delegado Leonardo Almeida.
Logística
No
caso específico da Katiara, o delegado Leonardo disse que uma pessoa de
confiança de Roceirinho viajava a São Paulo exclusivamente para pagar
integralmente Alemão, em local não informado pela PF. De posse do
dinheiro, Alemão encomendava a carga a traficantes do Mato Grosso Sul e
Paraná, que, por sua vez, faziam a compra com organizações do
narcotráfico do Paraguai e da Bolívia.
“Alemão é o cara que
comprava a droga que vinha das fronteiras e revendia para Katiara, PCC e
outras facções do país”, explicou o delegado.
Ainda segundo a
Polícia Federal, a carga chega à Bahia em carros e vai direto para as
cidades de São Sebastião do Passé e Alagoinhas, onde ficam armazenadas
em fazendas e sítios. Depois de um período, a carga é transportada para
os bairros de Valéria e Palestina, onde, segundo o delegado, ficam os
centros de distribuição da quadrilha em Salvador e no Recôncavo.
Estatuto
A Polícia Federal começou a investigar a Katiara em 2013 com a Operação Tríade.
Entre
2013 e 2014, a PF aprendeu da facção 2,5 toneladas de maconha e 513 kg
de cocaína, um montante estimado em R$ 52 milhões. “Acredito que foi um
golpe duro na organização criminosa”, declarou o delegado Leonardo
Almeida Rodrigues, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da
PF.
Para o delegado Leonardo Almeida Rodrigues, a Katiara está
longe de ser uma simples quadrilha de traficantes, mas sim “uma cópia
quase do PCC. Uma prova disso é o Estatuto da Katiara, divulgado pela
imprensa”, disse o delegado, referindo-se à matéria do CORREIO, que, no
dia 2 de agosto divulgou com exclusividade o documento da facção,
inspirado nos moldes do PCC (veja alguns trechos do documento abaixo)
“É
um grupo muito bem organizado. Tem seus chefes, pessoas mais próximas
ao líder da facção que pede conselhos de como agir, que administram os
negócios. Tem os gerentes, pessoas que distribuem as drogas para ele
(Roceirinho). São esses que viajam para finalizar o acerto com Alemão e
contratam alguém para trazer a carga de lá para a Bahia. Além disso, tem
os soldados, moradores dos bairros que fazem a segurança das bocas”,
emendou o delegado.
Hierarquia familiar
Segundo
o delegado, no topo da pirâmide está Roceirinho. Depois dele, um irmão,
Fernando de Jesus Lima, o Ojuara. “Tem muita gente da família
envolvida. O irmão dele é o segundo no comando, que controlava todas as
ações em Salvador”, disse. Na mesma função de Ojurara, Alan Santos
Fonseca, o Junior Pial, ou JP, respondia pelas bocas de fumo de Nazaré e
o restante do Recôncavo.
Os dois foram presos em dezembro do ano
passado, quando foram flagrados a bordo de um veículo, na região do
Retiro, com uma pistola Glock automática, de calibre ponto 40, com dois
carregadores municiados. Na época, a polícia apurou que “JP” e “Ojuara”
ordenaram os ataques aos ônibus em Valéria, ainda em dezembro, depois
que um comparsa traficante teria sido morto numa troca de tiros com
policiais militares.
CORREIO denunciou práticas de tortura no mangue
No
último dia 23, o CORREIO mostrou que, em Nazaré, a Katiara usa métodos
de tortura que incluem deixar rivais e devedores amarrados no mangue,
feridos, sem comer, expostos a insetos e caranguejos.
O delegado Leonardo Almeida disse que, durante as
investigações da Polícia Federal, também obteve relatos sobre as
práticas. “A organização criminosa tentava manter a hegemonia no local e
tivemos vários informes que houve torturas de inimigos e muitas
mortes”, disse.
O mangue funcionava como um tribunal do júri.
Moradores relataram que, à noite, ouvem, vindos do mangue, gritos e
gemidos de vítimas da facção sendo espancadas. Depois, elas são deixadas
amarradas, por dias, com os ferimentos expostos a insetos e
caranguejos. Para a foz do Rio Jaguaripe, entre os bairros Apaga Fogo e
Muritiba, são levados devedores e quem desobedece as regras da facção.
Aqueles que devem muito não têm segunda chance e são mortos de
imediato.
Depois de julgadas por uma comissão, formada pelo
gerente da boca e comparsas, as vítimas são agredidas e amarradas. No
caso de dívida de droga, aguarda-se o pagamento do montante devido pela
família. A intenção dos bandidos é fazer com que os parentes quitem as
dívidas, mas a maioria acaba morrendo e os corpos são despejados no
mangue. A outra forma de tortura é arrastar as vítimas na rua e,
depois, jogar os corpos nas casas das famílias.
Comandante da 3ª Companhia Independente da Polícia
Militar (CIPM/Nazaré), o capitão Maurício Costa contou que integrantes
da própria Katiara já foram amarrados no mangue. “O chefe deles mandou
amarrá-los como castigo. Já encontramos um tronco com corda”, disse à
reportagem.
Na semana passada, uma operação das polícias Civil e Militar efetuou dez prisões na região.
TRECHOS DO ESTATUTO (ERROS DE PORTUGUÊS MANTIDOS)
INTRODUÇÃO
“A
todos os irmãos que foi fundado O Primeiro Comando do Recôncavo de
Nazaré das Farinhas, que sua hierarquia é chamada Katiara, que foi
fundada no dia 16/10/2013. (...) Era o momento certo, de fundar a facção
Katiara em prol de trazer uma nova imagem com transparência e verdade
para fortalecer o crime no estado da Bahia”
CONFLITOS E ALIANÇAS
“Deixando
para todos os irmãos da Katiara e todos os criminosos cientes (...) que
o nosso objetivo é fortalecer todos os criminosos sem exceção,
independentemente de ser nossos irmãos e nossos amigos, estamos juntos
para fazer o certo respeitando sempre os espaços de todos, para todos
respeitar nosso espaço”
SELEÇÃO DE MEMBROS
“Não
aceitamos em nossa facção caguetes (delatores), homossexual,
estupradores, pedófilos e talaricos e usuários de crack e outras coisas
que fere a ética do crime”
CAIXINHA
“Todos
os integrantes que são da facção, terá obrigações de informar o nome da
favela da cidade onde mora e de quantos irmãos faz parte da quebrada
para poder usufruir dos benefícios que será fortalecidos, passar o nome
de todos os irmãos e companheiro leal para que possam ter (...) suas
matrículas de batismo, para passar para o responsável do gravata, para
que estes benefícios sejam realizados. Todos os integrantes que
estiverem na rua é obrigado pagar caixinha no valor de R$ 100 mensais
todo dia 15 de cada mês”